Tuesday, October 24, 2006

RESENHA - Economia, sociedade e tecnologia:

O texto se mostra contrario à concepção de inclusão digital surgida no século passado, na qual a facilitação de acesso às novas tecnologias, seriam suficientes para inserção das pessoas no era digital, defendendo a idéia de que inclusão digital vai alem e deve ser pensada a partir da inclusão social . Para fundamentar suas idéias Warschauer divide o texto em três partes, nas quais mostra uma evolução do uso das TIC’s nas empresas, suas conseqüências na sociedade e as mudanças que as novas tecnologias foram capazes de promover na comunicação.
No primeiro momento do texto, o autor faz um levantamento sobre a apropriação das TIC’s pelas empresas, onde relata o que chama de informacionalismo, que segundo o autor seria o novo estágio do capitalismo global, no qual as tecnologias da informação e comunicação são cada vez mais imprescindíveis, de forma que o próprio desenvolvimento econômico está atrelado a aplicação nestas novas tecnologias. São elas também responsáveis por grandes transformações nos modos de produção industrial, antes de massa e verticalmente organizada, para uma produção flexível, sob encomenda e com profissionais multiespecializados

“ Enquanto a empresa típica do século XX, foi a fábrica de automóveis, com trabalhadores enfileirados em uma linha de montagem, executando uma tarefa única, sobre ordens superiores, a empresa paradigmática do séc XXI, é a empresa de engenharia de software, com equipes de empregados multiespecializados, agrupando-se e reagrupando – se para assumir tarefas complexas ( ... ) as relações entre empregador e empregado e as relações entre empregados, assumiram novas formas ” pg 34.

Essas mudanças favorecem o surgimento de empresas que rompem as barreiras nacionais, denominadas de transnacionais, que orientam os investimentos para diversas partes do mundo.
Em seguida, o texto relata a estratificação econômica mundial, constatando através de dados do Banco Mundial e Organização das Nações Unidas, um aumento significativo na desigualdade entre os paises. Traz uma avaliação sobre desigualdade entre os paises ricos e pobres, no entanto, o mais importante neste segmento do texto é a diferença entre pobreza nos paises ricos e pobreza nos paises pobres e como ela se configurou após a introdução das TIC’s. Nos paises ricos, a aumento da desigualdade é conseqüência da reestruturação das economias pós – industriais, devido ao desaparecimento de atividades que antes eram bem remuneradas no setor industrial. Entretanto, nos paises pobres, a pobreza manteve- se basicamente estável, ou seja, nenhuma conseqüência positiva do surgimento das TIC’s, visto que muitos paises ainda nem as receberam. E em alguns paises pobres como Índia e China que já fazem uso destas, os dividendos gerados ficam concentrados em mãos de uma pequena minoria, enquanto, a maioria da população vive na linha abaixo da pobreza. Ou seja, existe aí uma diferença do que é pobreza em paises ricos e o que é pobreza em paises pobres. Ou seja, este mal sabe da existência desta revolução mundial, da transformação da sociedade em “sociedade da informação”, enquanto que aquele, as devidas transformações já ocorreram e o que houve foi um não acompanhamento por parte de alguns trabalhadores ao novo ritmo imposto.
Mark Warschauer, traz neste ultimo momento o que é o foco principal do texto , a exclusão digital como empecilho para a inclusão social. Tratou no texto a esfera econômica como fator excludente, a partir de agora mostrará que não é o único e sobretudo, a partir da demonstração de quatro das principais vantagens do uso das novas tecnologias, mostrará como o uso destas se faz condição necessária para a inserção do individuo neste novo mundo e a proporção que as mídias on-line atraem mais e mais informações sobre as diversas esferas da vida educação, política, cultura, entretenimento e relações pessoais, torna-se mais difícil para o cidadão que não dispõe destes conhecimentos o exercício da plena cidadania.
As informações trazidas pelo autor são de suma importância, embora não sejam as mais inovadoras, validas por permitir uma discussão sobre a importância não do acesso ao computador, mas sobretudo, pela gama de possibilidades que este pode proporcionar. Abrir pauta, para pensarmos no computador, não como o protagonista desta nova revolução, mas apenas como uma ferramenta que facilita e potencializa o uso e conhecimento do grande numero de informações que estão disponíveis, sendo esta – a informação – a grande protagonista de toda esta transformação. Assim, governos, organizações, instituições, devem se preocupar não em criar programas de fácil acesso a estas ferramentas, mas antes em criar projetos que possam esclarecer as pessoas as diversas possibilidades de uso do aparelho.

Friday, October 20, 2006

www.indiosonline.org.br

Especialistas e autores indígenas debatem entre os dias 17 e 19 de outubro, em São Paulo, as formas de atuação dos povos nativos na Internet, na literatura e nos meios audiovisuais.

Além de estudiosos da questão indígena, estarão reunidos no I Seminário de Mídias Nativas representantes de diversas aldeias, entre eles o videomaker Terena João Felipe Gomes Marcos, além do organizador da Rádio Terena, Emídio Pereira Neto, e os escritores guaranis Olívio Jekupé e Giselda Jerá.

"Os índios iniciaram uma intensa e diversificada ação informativa que vai da criação audiovisual à construção de sites e de redes digitais", diz Massimo Di Felice, professor da ECA (Escola de Comunicação e Artes da USP) e organizador do evento. "Uma apropriação tecnológica da palavra e um deslocamento eletrônico do pensamento nativo que supera a contraposição entre centro-periferia, antigo-moderno, local-global."

Os índios brasileiros têm forte atuação na Internet. Representantes de sete etnias usam a rede desde 2004, por exemplo, para fazer reivindicações e criticar o governo federal e os fazendeiros pelo site www.indiosonline.org.br. No México, um índio de origem otomi criou um navegador que traduz sites do espanhol para o ñhañhú, uma das 85 línguas nativas que se mantêm vivas no país

Friday, October 06, 2006

Resenha >>> Bridging Urban Digital Divides? Stephen Graham

Bridging Urban Digital Divides? Urban Polarisation and Information and Communication Technologies (ICT’s)
Stephen Graham

Resenha: Elizabeth Ponte

Resumo:

A divisão social das TIC’s permanece completamente desigual em todas as escalas. É na cidade contemporânea que essa desigualdade se mostra mais visível. Nas cidades, núcleos e enclaves de pessoas ‘superconectadas’ freqüentemente convivem lado a lado de um largo numero de pessoas sem ou com rudimentar acesso às tecnologias comunicacionais. Neste contexto, este artigo tem dois objetivos:
1) Procura demonstrar que as tendências dominantes do desenvolvimento das TIC’s estão largamente ajudando a criar novos extremos de desigualdade social e geográfica dentro e entre as cidades, no Norte e no Sul.
2) Explora a perspectiva de que essas ‘divisões urbano-digitais’ podem ser melhoradas através de progressivas e inovadoras iniciativas políticas que tratem as cidades e as tecnologias em paralelo.

Introdução:

Duas tendências dominantes definem nossa era: o maior processo de urbanização das historia humana e a extraordinariamente rápida (mas extremamente desigual) aplicação das tecnologias de informação e comunicação (TIC’s). As duas estão intimamente ligadas e se suportam mutuamente, alem de serem elementos constitutivos dos processos contemporâneos de modernização, internacionalização, globalização e industrialização.
Por que,então, as TIC’s estão ajudando a facilitar o processo de intensificação da urbanização mundial?

1) TIC’s permitem que centros urbanos desenvolvidos, com seus serviços e produtos de alto valor agregado, estender seus poderes,mercados e controle sobre territórios regionais, nacionais, internacionais e mesmo globais cada vez mais distantes.
2) Numa economia global intensamente volátil, a crescente velocidade e complexidade da inovação em todos os setores parece demandar uma concentração paralela nestas cidades com ‘posses’ suficientes para manter a continua competitividade.
3) A demanda por TIC’s é guiada pelo crescimento dos mercados metropolitanos. São, na grande maioria das vezes,estas cidades que conduzem o processo de investigação, investimento e inovação das TIC’s.

A complexa intersecção de comunidades, cidades e as TIC’s, que Castells denomina através da dialética entre o ‘espaço de fluxos’ ( the space of flows) e o ‘espaço de lugares’ (space of places), é também debatida por outros autores e permite a criação de vários conceitos para defini-la ou melhor delimita-la, dentre os quais as ‘cidades-ciborgues’ (cyborg cities) ou ‘cidades infinitas’ (infinite cities).

“In this, traditional monocentric cities give way to an all-pervasive and ever-present urbanization and urban culture, strung together by vast complexes of technological and communications systems. (Skeats, 1997).”

O notável neste processo é que os ‘centros’ e as ‘periferias’ da era da informação global,ao invés de estarem separadas por continentes agora permanecem geograficamente próximas uns aos outros dentro dos limites de cidades individuais. Normalmente, elas estão literalmente separadas por poucos metros, ampliados entretanto pela distancia existente entre os padrões de acesso extremamente desiguais a que ambas estão sujeitas.

Dados:
- Enquanto as TIC’s crescem num ritmo frenético, quase 70% da população mundial nunca fez uma ligação telefônica;
- Embora se desenvolva aceleradamente, a Internet permanece como um privilégio de menos de 5% da população global.


Estas são questões que não podem mais ser negligenciadas quando pensamos na relação entre as cidades e as novas tecnologias, mas muitas perguntas ainda podem ser feitas:

1) Como os fluxos econômicos mediados digitalmente se articulam com as economias das cidades e sistemas urbanos em diferentes lugares e setores dentro das economias desenvolvidas, subdesenvolvidas, pós-comunistas e em desenvolvimento?
2) Com se dá a relação entre a aplicação das TIC’s e o amplo processo de polarização social e geográfica que vêm sendo observado nas cidades?
3) Como a análise dos contextos urbanos e a elaboração de políticas podem lidar sensatamente com domínios intangíveis e invisíveis do fluxo eletrônico de informações e relações internacionais em tempo real em varias escalas?
4) E como as políticas relativas às cidades e às TIC’s podem ser unidas de forma a encorajar iniciativas que explorem o poder das novas tecnologias para o positivo desenvolvimento urbano e econômico?

2. Not the ‘Death os distance’! Not the ‘End of Geography’! ICT’s and Urban Polarisation

Pensar as TIC’s como ferramenta para a crescente polarização entre as cidades pode parecer a principio uma questão paradoxal, dado que as novas tecnologias são amplamente divulgadas e vendidas como ‘aproximadores’, ou seja facilitadores das relações sociais, culturais e econômicas. Sua face altamente segregadora não é facilmente vista, principalmente por aqueles que delas muito se utilizam. O autor apresenta quatro razões, relacionadas ao presente uso e distribuição das TIC’s, pelas quais esta segregação cresce. Isso acontece por que a utilização das TIC’s tende a:

2.1) Aumentar o poder dos poderosos:

A explosão das TIC’s propiciou um extraordinário crescimento do poder (social, econômico,cultural e geográfico) daqueles grupos e organizações que estão melhor conectados,mais capacitados e mais capazes a configurar a troca virtual de informações a seu favor. Eles sim são os maiores beneficiários da tão propagada ‘revolução da informação’.
Este trecho demonstra claramente o quanto o acesso às TIC’s, em especial à Internet, e a polarização social dentro das cidades estão intrincados:

“The Internet is creating parallel communications systems: one for those with income, education and – literally – connections, giving plentiful information at low costs and high speed; the other for those without connections, blocked by high barriers of time, cost and uncertainty and dependent on out-dated information. With people in these two systems living and competing side-by-side, the advantages of connection are overpowering. The voices and concerns of people already living in human poverty – lacking incomes, education and access to public institutions – are being increasingly marginalized.” (UNDP, 1999. p. 62)

O efeito dessas discrepâncias produz o fenômeno, segundo a OTA ( US Office of Technology Assestment) da ‘concentração da pobreza e desconcentração das oportunidades’.

2.2) ICTs as supports to the restructuring of human settlements: Integrating internacional divisions of labour

Neste ponto, o autor ressalta que há uma grande conexão entre as TIC’s, a polarização urbana global e o o crescente poder das corporações internacionais moldando o desenvolvimento urbano.

“Against the rethoric that ‘cyberspace’ is a purely virtual and desembodied world, the radicaç growth of ICTs is closely related to the restructuring of real geographical places at all geographical scales’.

Graham enfatiza a tendência de muitas empresas de tecnologia e telecomunicações em direcionarem grande parte de seus serviços e produtos de ponta para um seleto grupo de usuários preferenciais, o que Dan Schiller chama de ‘power users’, ou seja, usuários – muitas vezes residenciais – que utilizam largamente os serviços de telefonia fixa e móvel, internet banda larga, tecnologia wireless e etc.

O largo desenvolvimento das TICs ainda favorece o aumento das áreas geográficas contempladas por certas empresas de tecnologia, americanas e européias, que não encaram a distancia transatlântica como fator impeditivo de seu desenvolvimento em outros continentes, notando que esse espraiamento passa convenientemente ao largo das áreas pobres dos paises aos quais se dirige.

2.3) ICTs, Urban Polarisation and the selective bypassing of the local

Este tópico trata do reflexo real de modernização de certos núcleos das grandes cidades através do uso das TICs ora como forma de aproximação com lugares geograficamente distantes, ora como forma distanciamento da pobreza dominante.

“The eneven growth of ICTs and ‘cyber spaces’ thus become closely embroiled in the restructuring of real urban space. Walls, ramparts, security fences, eletric fences, armed guards and defensive urban design are the physical manifestation of this process in both Northern and Southern cities, as globally connected and ICT-saturated social and economic groups and enclaves strive to insulate themselves from the sorrounding landscapes where poverty and exclusion often concentrate.”


Como exemplo, Graham discorre sobre o caso de várias cidades de países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento nas quais foram criados núcleos, ou nichos melhor dizendo, de alto desenvolvimento econômico e, conseqüentemente, tecnológico. Estas cidades são: Bankok (Tailândia); São Paulo; Johore, Batam e Bintam, alem de Kuala Lumpur (Malásia e Indonésia) e Bangalore (Índia). Em São Paulo, o autor destaca o caso do bairro do Morumbi, local, segundo ele, onde é mais perceptível a concentração de renda e serviços hightec.

2.4) ICTs and cultural and economic biases of the International Information Market-place.

Neste tópico é debatida uma ultima instancia no que diz respeito ao espraiamento do poder economico e geografico dos grandes grupos que dominam (produzindo e utilizando) as TICs, em especial os EUA, que é a forte influencia cultural às quais as TICs muitas vezes servem de ferramenta, numa estratégia chamada pelo autor – em referencia – de ‘bandwidth colonialism’ (colonialismo em bandalarga, numa tradução a grosso modo).


“A couple of thousand giant companies – as employers of workers, laboring on net-worked production chains, as advertisers and, increasingly, as educators – today preside, not only over the economy but also over a larger web of institutions involved in social reproduction: business of course, but also formal education, politics and culture.”

3. Challenging Urban Digital Divides: Harnessing ICTs to Address Urban Polarisation

Neste terceiro e ultimo tópico, bem como na conclusão do artigo, o Graham procura minimizar a face danosa da atual utilização das TICs, como ferramenta de desigualdade e polarização urbana, demonstrando como iniciativas em vários paises, de cunho publico e privado, vem desafiando essa realidade.

“We cannot doubt that dominant uses of ICTs currently support the deepening of geographical unevenness at all scales. But it is crucial to remember that ICTs are inherently flexible technologies.”

Demonstrando a ‘flexibilidade’ dos usos dessas tecnologias, o autor utiliza-se de exemplos como as: cabines publicas de internet (Public Internet Booths) em Amsterda, Polonia e Peru; os telecentros comunitários (community telecentres) em vários países subdesenvolvidos e iniciativas de expansão da tecnologia wireless e móvel na Tanzânia e em Gana.

Alguns questionamento subsistem, como: podemos generalizar e democratizar as oportunidades que vem a revolução urbana high-tech? Podemos encontrar formas mais igualitárias de desenvolvimento das cidades e comunidades em uma era mediada eletronicamente? Apesar de acreditar que ainda é cedo para ofertarmos respostas concretas para essas questões, Graham enfatiza a importância de políticas publicas que incluam formas de melhoria da paradoxal relação entre as TICs, seus usos e suas possibilidades, e o desenvolvimento urbano.

Tuesday, October 03, 2006

Os Pilares da Cibercultura

Com uma cobertura ampla, mas ao mesmo tempo, suficientemente profunda do fenômeno cibercultura no momento presente, André Lemos[1], em seu ensaio Cibercultura. Alguns pontos para compreender a nossa época (da coletânea Olhares sobre a cibercultura, organizado pelo próprio Lemos e por Paulo Cunha) sintetiza as relações entre as novas tecnologias de informação e comunicação e a cultura contemporânea em três pilares fundamentais: a reconfiguração de práticas, modalidades midiáticas e espaços, a conectividade generalizada e a liberação do pólo de emissão.

A idéia dos três pilares, ou leis da cibercultura, como denomina o autor, facilita a análise dos variados aspectos da sociedade contemporânea devido, principalmente, a sistematização que auxilia a compreensão do conjunto de problemas da nossa época. E é partindo desta perspectiva que Lemos determina os marcos iniciais dos quinze pontos essenciais para traçar e explicar a cibercultura de modo panorâmico.

São eles: Cibercultura Definição, O Imaginário da época, As origens, A nova configuração espaço-temporal, A nova estrutura técnica contemporânea, Ampliação do fenômeno, Metáforas, A cibercultura no cotidiano. As novas práticas comunicacionais, A cibercultura no cotidiano. As novas relações sociais eletrônicas, As questões artísticas. A Arte eletrônica, O Cyborg, Questões políticas da cibercultura, A emergência de cibercidades, Leis da Cibercultura e Para sair do Século XXI.

Definindo a cibercultura como “a forma sociocultural que emerge da relação simbiótica entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias de base micro-eletrônica que surgiram com a convergência das telecomunicações com a informática na década de 70”, Lemos (2003) indica que não é um fenômeno futuro da cultura, mas um presente que se materializa através dos home banking, cartões inteligentes, celulares, palms, pages, voto eletrônico, imposto de renda via rede, entre outros.

Para compreender melhor o fenômeno da cibercultura, Lemos dialoga com os pensamentos de Castells e atualiza os Heidegger. Castells (1996) afirma que se trata de uma convergência da informática com as telecomunicações originando ao que se vem chamando de Sociedade da Informação e Lemos atualiza o conceito de Heidegger (1954) ao dizer que seria a essência da técnica moderna estava na requisição energético-material da natureza para a livre utilização científica do mundo e agora centra-se na transformação do mundo em dados binários para futura manipulação humana.

Ao afirmar que é necessário traçar uma perspectiva histórica da cibercultura, Lemos desliza ao apenas pincelar argumentos originários da década de 70. Quem detalha o panorama é Marcos Palacios[2] no ensaio Mundo Digital (publicado no livro Cultura e Atualidade no Vestibular organizado por Albino Rubim).

Palacios (2005) afirma que a chamada Sociedade da Informação é fortemente marcada pela coincidência histórica de três processos independentes: a) Revolução dos costumes (anos 60) com o surgimento e florescimento de movimentos sócio-culturais como o Feminismo, Ecologismo, Direitos Humanos, Gay Liberation, etc e as reações por eles produzidas; b) Revolução da tecnologia informacional; Crise econômica do capitalismo e do estatismo e sua subseqüente reestruturação: a queda do socialismo real (União Soviética e seus satélites) e estabelecimento de um novo ordenamento internacional, marcado pelo fim da bipolaridade e por uma multiplicação de eixos de poder (Estados Unidos, Comunidade Européia, China, países emergentes).

Um dado importante a ser ressaltado no discurso de Lemos é essa inter-relação entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias que transformam de forma progressiva nossas cidades de concreto em cidades digitais (bits). Esta reconfiguração geral de práticas, conceitos e espaços geraram novos conflitos de natureza política e ética (com a discussão sobre o limite da privacidade), científica (com a idéia de que o corpo torna-se obsoleto sem componentes eletrônicos) e comunicacional (com a liberação do pólo de emissão dando voz a discursos anteriormente reprimidos).

Palacios (2005) complementa que a liberação do pólo de emissão, com a polifonia resultante, faz crescer exponencialmente o volume de informação disponível. A quantidade de informação produzida no mundo dobrou de 1999 a 2002 e aumenta 30% a cada ano.

Na medida que as tecnologias de comunicação possibilitam a interatividade e a participação dos indivíduos como produtores de informação e não apenas consumidores, é de se esperar que o volume cresça. E pela primeira vez na história fala-se em excesso e não em escassez de informação.

Ao explicar o problema da nova configuração espaço-temporal, onde a noção de espaço X tempo foi diminuindo com o passar dos séculos, Lemos (2003) conclui que vivenciamos uma sensação de tempo real devido à ubiqüidade, a instantaneidade e a conectividade generalizada. Ele afirma que com as tecnologias digitais-telemáticas presenciamos a aniquilação das distâncias e a noção de que tudo é rede, tudo está conectado.

Um bom exemplo a ser analisado é a passagem do PC ao CC (computador conectado) que resultará em conseqüências para as novas formas de relação social, bem como para as novas modalidades de comércio, entretenimento, trabalho, educação, etc. Essa alteração, segundo Lemos (2003) e Palacios (2005), nos coloca em meio à era da conexão generalizada, primeiro fixa e agora, cada vez mais, móvel.

A simples pergunta “Onde você está?” ao ligar para alguém com um telefone celular sintetiza a reconfiguração da noção de espaço que a sociedade contemporânea passa. Há pouco mais de dez anos esta pergunta seria, no mínimo, insensata, pois o telefone era um aparelho que determinava a sua posição. Ou estava no trabalho ou em casa.

Partindo deste exemplo, nos deparamos com situações e questionamentos não respondidos no texto, mas que são importantes. O que é lugar (rua praça, monumentos)? E o teletrabalho e o ensino a distância? Estas e outras questões são temas recorrentes quando falamos de cibercidades. Lemos (2003) afirma que apesar de podermos estudar a distância, visitar um museu ou mesmo uma cidade, o que o tempo real nos fornece (a possibilidade de ausência do espaço) será justamente o que nos faltará e, nesse sentido, buscaremos ainda mais o “espaço-escola”, o “espaço-museu”, o “espaço-cidade”.

Abordando problemas lingüísticos e metafóricos, a exemplo da utilização dos termos “navegando” na rede, “Home Page” e “desktop”, Lemos envolve o leitor em um cenário pincelado com explicações sobre o pensamento determinista que permeia a própria palavra cibercultura e com detalhes sobre as novas relações sociais eletrônicas mediadas que diferem do contato face a face, mas que se assemelham com o espaço das teatralizações. Assim, com dúvidas, debates e atualizações constantes, a sociedade da informação (que vem da convergência da informática com as telecomunicações) é atualizada com a apropriação técnica do social dando origem ao universo presente da cibercultura.

BILIOGRAFIA:

Lemos, André; Cunha, Paulo (orgs). Olhares sobre a Cibercultura. Sulina, Porto Alegre, 2003; pp. 11-23

RUBIM, Albino (org). Cultura e Atualidade no Vestibular. Salvador, EDUFBA, 2005.

[1] André Lemos é doutor em sociologia pela Université Réne Descartes, Paris V, Sorbonne, é professor adjunto da Faculdade de Comunicação da UFBa, coordenador do Centro de Estudos e Pesquisa em Cibercultura (Ciberpesquisa).
[2] Marcos Palacios é doutor em Sociologia pela Universidade de Liverpool, Professor Titular em Jornalismo e docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas e Programa Multidisciplinar em Cultura e Sociedade da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia.

Monday, October 02, 2006

Resenha - "Modelos de acesso: equipamentos, conectividade e letramento"

"Modelos de acesso: equipamentos, conectividade e letramento", de Mark Warschauer - capítulo 2 do livro "Tecnologia e inclusão digital: a exclusão digital em debate"


Resenha por Maruzia Dultra

A partir da idéia de que o
acesso à tecnologia da informação e da comunicação (TIC) é fundamental para que haja inclusão digital, Mark Warschauer põe em discussão as possibilidades e limitações da cada nível de acessibilidade.

Primeiramente, aborda o que considera os 2 modelos básicos de acesso: aquele advindo da simples posse do equipamento e o outro pela conexão desse equipamento com as redes tecnológicas (elétrica, telefônica, de internet, etc). Ambos os modelos são apresentados como necessários para o acesso à TIC, mas não suficientes. Algumas diferenças entre eles está na forma de aquisição e de propagação na sociedade: enquanto o primeiro requer um pagamento único e teve rápida difusão, o segundo demanda taxas periódicas e apresenta uma distribuição mais lenta por necessitar de uma infra-estrutura para instalação.

Mas, segundo o autor, "o que é mais importante a respeito da TIC não é tanto a disponibilidade do equipamento de informática ou da rede de internet, mas sim a capacidade pessoal do usuário de fazer 'uso' desse equipamento e dessa rede, envolvendo-se em 'práticas sociais significativas'". Partindo da análise da alfabetização do mundo 'letrado' para chegar à alfabetização digital (chamada no texto de "letramento"), Warschauer desenvolve a idéia da importância de uma habilidade individual a fim de interação social. Da analogia entre os 2 tipos de aprendizagem, o autor aponta possíveis categorias de recursos demandados por ambos, sendo eles: físico, digital, humano e social.

Os recursos físicos são os aparatos técnicos em si, a serem apropriados pelos recursos humanos através da capacidade destes em lidar com os conteúdos acessados (recursos digitais). Essa 'capacidade' diz respeito às habilidades cognitivas de processamento e às atitudes de motivação, confiança e disposição diante do ato. A última categoria, os recursos sociais, o autor destaca como ponto crucial na questão do acesso - que abarca não só os níveis da cognição e da cultura, mas também do poder e da política. Dessa forma, afirma: "o letramento não é transmitido do alto, mas apoderado a partir de baixo, por meio da mobilização social e da ação coletiva".

Nesse sentido, Warschauer aponta para o debate trazido por Paulo Freire com a 'Pedagogia da praxis', na qual o conteúdo utilizado no processo de aprendizagem deve corresponder ao contexto social dos indivíduos envolvidos. Este parece ser o caminho mais eficaz para a construção de políticas de acesso condizentes com os níveis específicos de realidade, e que dirijam os recursos acima referidos, amplificando-os e promovendo, assim, a inclusão social por meio do uso efetivo da TIC.