Friday, October 06, 2006

Resenha >>> Bridging Urban Digital Divides? Stephen Graham

Bridging Urban Digital Divides? Urban Polarisation and Information and Communication Technologies (ICT’s)
Stephen Graham

Resenha: Elizabeth Ponte

Resumo:

A divisão social das TIC’s permanece completamente desigual em todas as escalas. É na cidade contemporânea que essa desigualdade se mostra mais visível. Nas cidades, núcleos e enclaves de pessoas ‘superconectadas’ freqüentemente convivem lado a lado de um largo numero de pessoas sem ou com rudimentar acesso às tecnologias comunicacionais. Neste contexto, este artigo tem dois objetivos:
1) Procura demonstrar que as tendências dominantes do desenvolvimento das TIC’s estão largamente ajudando a criar novos extremos de desigualdade social e geográfica dentro e entre as cidades, no Norte e no Sul.
2) Explora a perspectiva de que essas ‘divisões urbano-digitais’ podem ser melhoradas através de progressivas e inovadoras iniciativas políticas que tratem as cidades e as tecnologias em paralelo.

Introdução:

Duas tendências dominantes definem nossa era: o maior processo de urbanização das historia humana e a extraordinariamente rápida (mas extremamente desigual) aplicação das tecnologias de informação e comunicação (TIC’s). As duas estão intimamente ligadas e se suportam mutuamente, alem de serem elementos constitutivos dos processos contemporâneos de modernização, internacionalização, globalização e industrialização.
Por que,então, as TIC’s estão ajudando a facilitar o processo de intensificação da urbanização mundial?

1) TIC’s permitem que centros urbanos desenvolvidos, com seus serviços e produtos de alto valor agregado, estender seus poderes,mercados e controle sobre territórios regionais, nacionais, internacionais e mesmo globais cada vez mais distantes.
2) Numa economia global intensamente volátil, a crescente velocidade e complexidade da inovação em todos os setores parece demandar uma concentração paralela nestas cidades com ‘posses’ suficientes para manter a continua competitividade.
3) A demanda por TIC’s é guiada pelo crescimento dos mercados metropolitanos. São, na grande maioria das vezes,estas cidades que conduzem o processo de investigação, investimento e inovação das TIC’s.

A complexa intersecção de comunidades, cidades e as TIC’s, que Castells denomina através da dialética entre o ‘espaço de fluxos’ ( the space of flows) e o ‘espaço de lugares’ (space of places), é também debatida por outros autores e permite a criação de vários conceitos para defini-la ou melhor delimita-la, dentre os quais as ‘cidades-ciborgues’ (cyborg cities) ou ‘cidades infinitas’ (infinite cities).

“In this, traditional monocentric cities give way to an all-pervasive and ever-present urbanization and urban culture, strung together by vast complexes of technological and communications systems. (Skeats, 1997).”

O notável neste processo é que os ‘centros’ e as ‘periferias’ da era da informação global,ao invés de estarem separadas por continentes agora permanecem geograficamente próximas uns aos outros dentro dos limites de cidades individuais. Normalmente, elas estão literalmente separadas por poucos metros, ampliados entretanto pela distancia existente entre os padrões de acesso extremamente desiguais a que ambas estão sujeitas.

Dados:
- Enquanto as TIC’s crescem num ritmo frenético, quase 70% da população mundial nunca fez uma ligação telefônica;
- Embora se desenvolva aceleradamente, a Internet permanece como um privilégio de menos de 5% da população global.


Estas são questões que não podem mais ser negligenciadas quando pensamos na relação entre as cidades e as novas tecnologias, mas muitas perguntas ainda podem ser feitas:

1) Como os fluxos econômicos mediados digitalmente se articulam com as economias das cidades e sistemas urbanos em diferentes lugares e setores dentro das economias desenvolvidas, subdesenvolvidas, pós-comunistas e em desenvolvimento?
2) Com se dá a relação entre a aplicação das TIC’s e o amplo processo de polarização social e geográfica que vêm sendo observado nas cidades?
3) Como a análise dos contextos urbanos e a elaboração de políticas podem lidar sensatamente com domínios intangíveis e invisíveis do fluxo eletrônico de informações e relações internacionais em tempo real em varias escalas?
4) E como as políticas relativas às cidades e às TIC’s podem ser unidas de forma a encorajar iniciativas que explorem o poder das novas tecnologias para o positivo desenvolvimento urbano e econômico?

2. Not the ‘Death os distance’! Not the ‘End of Geography’! ICT’s and Urban Polarisation

Pensar as TIC’s como ferramenta para a crescente polarização entre as cidades pode parecer a principio uma questão paradoxal, dado que as novas tecnologias são amplamente divulgadas e vendidas como ‘aproximadores’, ou seja facilitadores das relações sociais, culturais e econômicas. Sua face altamente segregadora não é facilmente vista, principalmente por aqueles que delas muito se utilizam. O autor apresenta quatro razões, relacionadas ao presente uso e distribuição das TIC’s, pelas quais esta segregação cresce. Isso acontece por que a utilização das TIC’s tende a:

2.1) Aumentar o poder dos poderosos:

A explosão das TIC’s propiciou um extraordinário crescimento do poder (social, econômico,cultural e geográfico) daqueles grupos e organizações que estão melhor conectados,mais capacitados e mais capazes a configurar a troca virtual de informações a seu favor. Eles sim são os maiores beneficiários da tão propagada ‘revolução da informação’.
Este trecho demonstra claramente o quanto o acesso às TIC’s, em especial à Internet, e a polarização social dentro das cidades estão intrincados:

“The Internet is creating parallel communications systems: one for those with income, education and – literally – connections, giving plentiful information at low costs and high speed; the other for those without connections, blocked by high barriers of time, cost and uncertainty and dependent on out-dated information. With people in these two systems living and competing side-by-side, the advantages of connection are overpowering. The voices and concerns of people already living in human poverty – lacking incomes, education and access to public institutions – are being increasingly marginalized.” (UNDP, 1999. p. 62)

O efeito dessas discrepâncias produz o fenômeno, segundo a OTA ( US Office of Technology Assestment) da ‘concentração da pobreza e desconcentração das oportunidades’.

2.2) ICTs as supports to the restructuring of human settlements: Integrating internacional divisions of labour

Neste ponto, o autor ressalta que há uma grande conexão entre as TIC’s, a polarização urbana global e o o crescente poder das corporações internacionais moldando o desenvolvimento urbano.

“Against the rethoric that ‘cyberspace’ is a purely virtual and desembodied world, the radicaç growth of ICTs is closely related to the restructuring of real geographical places at all geographical scales’.

Graham enfatiza a tendência de muitas empresas de tecnologia e telecomunicações em direcionarem grande parte de seus serviços e produtos de ponta para um seleto grupo de usuários preferenciais, o que Dan Schiller chama de ‘power users’, ou seja, usuários – muitas vezes residenciais – que utilizam largamente os serviços de telefonia fixa e móvel, internet banda larga, tecnologia wireless e etc.

O largo desenvolvimento das TICs ainda favorece o aumento das áreas geográficas contempladas por certas empresas de tecnologia, americanas e européias, que não encaram a distancia transatlântica como fator impeditivo de seu desenvolvimento em outros continentes, notando que esse espraiamento passa convenientemente ao largo das áreas pobres dos paises aos quais se dirige.

2.3) ICTs, Urban Polarisation and the selective bypassing of the local

Este tópico trata do reflexo real de modernização de certos núcleos das grandes cidades através do uso das TICs ora como forma de aproximação com lugares geograficamente distantes, ora como forma distanciamento da pobreza dominante.

“The eneven growth of ICTs and ‘cyber spaces’ thus become closely embroiled in the restructuring of real urban space. Walls, ramparts, security fences, eletric fences, armed guards and defensive urban design are the physical manifestation of this process in both Northern and Southern cities, as globally connected and ICT-saturated social and economic groups and enclaves strive to insulate themselves from the sorrounding landscapes where poverty and exclusion often concentrate.”


Como exemplo, Graham discorre sobre o caso de várias cidades de países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento nas quais foram criados núcleos, ou nichos melhor dizendo, de alto desenvolvimento econômico e, conseqüentemente, tecnológico. Estas cidades são: Bankok (Tailândia); São Paulo; Johore, Batam e Bintam, alem de Kuala Lumpur (Malásia e Indonésia) e Bangalore (Índia). Em São Paulo, o autor destaca o caso do bairro do Morumbi, local, segundo ele, onde é mais perceptível a concentração de renda e serviços hightec.

2.4) ICTs and cultural and economic biases of the International Information Market-place.

Neste tópico é debatida uma ultima instancia no que diz respeito ao espraiamento do poder economico e geografico dos grandes grupos que dominam (produzindo e utilizando) as TICs, em especial os EUA, que é a forte influencia cultural às quais as TICs muitas vezes servem de ferramenta, numa estratégia chamada pelo autor – em referencia – de ‘bandwidth colonialism’ (colonialismo em bandalarga, numa tradução a grosso modo).


“A couple of thousand giant companies – as employers of workers, laboring on net-worked production chains, as advertisers and, increasingly, as educators – today preside, not only over the economy but also over a larger web of institutions involved in social reproduction: business of course, but also formal education, politics and culture.”

3. Challenging Urban Digital Divides: Harnessing ICTs to Address Urban Polarisation

Neste terceiro e ultimo tópico, bem como na conclusão do artigo, o Graham procura minimizar a face danosa da atual utilização das TICs, como ferramenta de desigualdade e polarização urbana, demonstrando como iniciativas em vários paises, de cunho publico e privado, vem desafiando essa realidade.

“We cannot doubt that dominant uses of ICTs currently support the deepening of geographical unevenness at all scales. But it is crucial to remember that ICTs are inherently flexible technologies.”

Demonstrando a ‘flexibilidade’ dos usos dessas tecnologias, o autor utiliza-se de exemplos como as: cabines publicas de internet (Public Internet Booths) em Amsterda, Polonia e Peru; os telecentros comunitários (community telecentres) em vários países subdesenvolvidos e iniciativas de expansão da tecnologia wireless e móvel na Tanzânia e em Gana.

Alguns questionamento subsistem, como: podemos generalizar e democratizar as oportunidades que vem a revolução urbana high-tech? Podemos encontrar formas mais igualitárias de desenvolvimento das cidades e comunidades em uma era mediada eletronicamente? Apesar de acreditar que ainda é cedo para ofertarmos respostas concretas para essas questões, Graham enfatiza a importância de políticas publicas que incluam formas de melhoria da paradoxal relação entre as TICs, seus usos e suas possibilidades, e o desenvolvimento urbano.

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