Tuesday, October 03, 2006

Os Pilares da Cibercultura

Com uma cobertura ampla, mas ao mesmo tempo, suficientemente profunda do fenômeno cibercultura no momento presente, André Lemos[1], em seu ensaio Cibercultura. Alguns pontos para compreender a nossa época (da coletânea Olhares sobre a cibercultura, organizado pelo próprio Lemos e por Paulo Cunha) sintetiza as relações entre as novas tecnologias de informação e comunicação e a cultura contemporânea em três pilares fundamentais: a reconfiguração de práticas, modalidades midiáticas e espaços, a conectividade generalizada e a liberação do pólo de emissão.

A idéia dos três pilares, ou leis da cibercultura, como denomina o autor, facilita a análise dos variados aspectos da sociedade contemporânea devido, principalmente, a sistematização que auxilia a compreensão do conjunto de problemas da nossa época. E é partindo desta perspectiva que Lemos determina os marcos iniciais dos quinze pontos essenciais para traçar e explicar a cibercultura de modo panorâmico.

São eles: Cibercultura Definição, O Imaginário da época, As origens, A nova configuração espaço-temporal, A nova estrutura técnica contemporânea, Ampliação do fenômeno, Metáforas, A cibercultura no cotidiano. As novas práticas comunicacionais, A cibercultura no cotidiano. As novas relações sociais eletrônicas, As questões artísticas. A Arte eletrônica, O Cyborg, Questões políticas da cibercultura, A emergência de cibercidades, Leis da Cibercultura e Para sair do Século XXI.

Definindo a cibercultura como “a forma sociocultural que emerge da relação simbiótica entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias de base micro-eletrônica que surgiram com a convergência das telecomunicações com a informática na década de 70”, Lemos (2003) indica que não é um fenômeno futuro da cultura, mas um presente que se materializa através dos home banking, cartões inteligentes, celulares, palms, pages, voto eletrônico, imposto de renda via rede, entre outros.

Para compreender melhor o fenômeno da cibercultura, Lemos dialoga com os pensamentos de Castells e atualiza os Heidegger. Castells (1996) afirma que se trata de uma convergência da informática com as telecomunicações originando ao que se vem chamando de Sociedade da Informação e Lemos atualiza o conceito de Heidegger (1954) ao dizer que seria a essência da técnica moderna estava na requisição energético-material da natureza para a livre utilização científica do mundo e agora centra-se na transformação do mundo em dados binários para futura manipulação humana.

Ao afirmar que é necessário traçar uma perspectiva histórica da cibercultura, Lemos desliza ao apenas pincelar argumentos originários da década de 70. Quem detalha o panorama é Marcos Palacios[2] no ensaio Mundo Digital (publicado no livro Cultura e Atualidade no Vestibular organizado por Albino Rubim).

Palacios (2005) afirma que a chamada Sociedade da Informação é fortemente marcada pela coincidência histórica de três processos independentes: a) Revolução dos costumes (anos 60) com o surgimento e florescimento de movimentos sócio-culturais como o Feminismo, Ecologismo, Direitos Humanos, Gay Liberation, etc e as reações por eles produzidas; b) Revolução da tecnologia informacional; Crise econômica do capitalismo e do estatismo e sua subseqüente reestruturação: a queda do socialismo real (União Soviética e seus satélites) e estabelecimento de um novo ordenamento internacional, marcado pelo fim da bipolaridade e por uma multiplicação de eixos de poder (Estados Unidos, Comunidade Européia, China, países emergentes).

Um dado importante a ser ressaltado no discurso de Lemos é essa inter-relação entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias que transformam de forma progressiva nossas cidades de concreto em cidades digitais (bits). Esta reconfiguração geral de práticas, conceitos e espaços geraram novos conflitos de natureza política e ética (com a discussão sobre o limite da privacidade), científica (com a idéia de que o corpo torna-se obsoleto sem componentes eletrônicos) e comunicacional (com a liberação do pólo de emissão dando voz a discursos anteriormente reprimidos).

Palacios (2005) complementa que a liberação do pólo de emissão, com a polifonia resultante, faz crescer exponencialmente o volume de informação disponível. A quantidade de informação produzida no mundo dobrou de 1999 a 2002 e aumenta 30% a cada ano.

Na medida que as tecnologias de comunicação possibilitam a interatividade e a participação dos indivíduos como produtores de informação e não apenas consumidores, é de se esperar que o volume cresça. E pela primeira vez na história fala-se em excesso e não em escassez de informação.

Ao explicar o problema da nova configuração espaço-temporal, onde a noção de espaço X tempo foi diminuindo com o passar dos séculos, Lemos (2003) conclui que vivenciamos uma sensação de tempo real devido à ubiqüidade, a instantaneidade e a conectividade generalizada. Ele afirma que com as tecnologias digitais-telemáticas presenciamos a aniquilação das distâncias e a noção de que tudo é rede, tudo está conectado.

Um bom exemplo a ser analisado é a passagem do PC ao CC (computador conectado) que resultará em conseqüências para as novas formas de relação social, bem como para as novas modalidades de comércio, entretenimento, trabalho, educação, etc. Essa alteração, segundo Lemos (2003) e Palacios (2005), nos coloca em meio à era da conexão generalizada, primeiro fixa e agora, cada vez mais, móvel.

A simples pergunta “Onde você está?” ao ligar para alguém com um telefone celular sintetiza a reconfiguração da noção de espaço que a sociedade contemporânea passa. Há pouco mais de dez anos esta pergunta seria, no mínimo, insensata, pois o telefone era um aparelho que determinava a sua posição. Ou estava no trabalho ou em casa.

Partindo deste exemplo, nos deparamos com situações e questionamentos não respondidos no texto, mas que são importantes. O que é lugar (rua praça, monumentos)? E o teletrabalho e o ensino a distância? Estas e outras questões são temas recorrentes quando falamos de cibercidades. Lemos (2003) afirma que apesar de podermos estudar a distância, visitar um museu ou mesmo uma cidade, o que o tempo real nos fornece (a possibilidade de ausência do espaço) será justamente o que nos faltará e, nesse sentido, buscaremos ainda mais o “espaço-escola”, o “espaço-museu”, o “espaço-cidade”.

Abordando problemas lingüísticos e metafóricos, a exemplo da utilização dos termos “navegando” na rede, “Home Page” e “desktop”, Lemos envolve o leitor em um cenário pincelado com explicações sobre o pensamento determinista que permeia a própria palavra cibercultura e com detalhes sobre as novas relações sociais eletrônicas mediadas que diferem do contato face a face, mas que se assemelham com o espaço das teatralizações. Assim, com dúvidas, debates e atualizações constantes, a sociedade da informação (que vem da convergência da informática com as telecomunicações) é atualizada com a apropriação técnica do social dando origem ao universo presente da cibercultura.

BILIOGRAFIA:

Lemos, André; Cunha, Paulo (orgs). Olhares sobre a Cibercultura. Sulina, Porto Alegre, 2003; pp. 11-23

RUBIM, Albino (org). Cultura e Atualidade no Vestibular. Salvador, EDUFBA, 2005.

[1] André Lemos é doutor em sociologia pela Université Réne Descartes, Paris V, Sorbonne, é professor adjunto da Faculdade de Comunicação da UFBa, coordenador do Centro de Estudos e Pesquisa em Cibercultura (Ciberpesquisa).
[2] Marcos Palacios é doutor em Sociologia pela Universidade de Liverpool, Professor Titular em Jornalismo e docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas e Programa Multidisciplinar em Cultura e Sociedade da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia.

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